Pousou a bandeja sobre a mesa fria, e rasgou devagarinho o plástico pelas pontas de cima do exemplar de “Os Argonautas” ao lado da refeição do self-service.
Era maravilhoso como “Malinowski”, o “Kula”, continuavam, após décadas, sendo a cara da saudosa professora Déa Candango que apresentou esse estudo magnífico, dentre outros clássicos, a ele, André, na turma de “Introdução à Antropologia”. O livro era a cara da brasiliense, recém-doutora antes dos 30 pela UnB, recém-chegada ao Nordeste para assumir concurso e que “chegou chegando” fascinando a garotada do CH.
Toda aquela disciplina tinha sido inesquecível: cada pessoa corrigiu sua própria prova em uma conversa com a doutora. Ninguém dos 40 estudantes atribuiu a si mesmo a nota máxima, e toda turma ficou dias e dias comentando a autoavaliação concebida.
André estava emocionadíssimo ao segurar pela primeira vez a obra de mais de 600 páginas, com fotografias inéditas da expedição, ao cheirar o livro. Ficou bem um mês se preparando para a melhor ocasião de abrir o pacote, começar a deleitar-se, iniciar a leitura. Completava esse quadro emotivo o fato de ter perdido o volume, justamente
indicado pela professora, da Coleção “Os Pensadores”, sobre Malinowski – ele
emprestara para alguém anos atrás que nunca lhe devolveu. O bom filho à casa torna. E
melhor nessa edição caprichada adquirida pelo comércio eletrônico em suaves parcelas
no crédito.
Segurando o sentimentalismo, na Praça de Alimentação, André largou o calhamaço apenas quando Ivone veio ao seu encontro deixando a “bacatada”:
– No capricho, Seu André! Sem açúcar por causa da sua diabetes.
– Você é demais, Dona Ivone!
Ivone era da primeira leva, uma das “sobreviventes” desde que André começou a frequentar o estabelecimento há 13 anos ao mudar para perto. Ela e a gerente Gustava que estavam desde sempre: a empresa a cada dois anos, ou menos, trocava um terço dos “colaboradores”. Ivone era desenrolada. Quando ela folgava a Praça virava bagunça.
Não era a gerente nem a sub, mas ditava o ritmo e a logística no ambiente com a mão na massa, orientando colegas. Varria, lavava, servia, cozinhava, abastecia, notava o que faltava na cozinha e balcões. Certo que todos e todas tinham que fazer de tudo, porém André achava Ivone a eficiência em pessoa, vivaz para cada situação. Um dia, no estacionamento, ela lhe contou que morava no subúrbio. Ele viu, então, a sua
bicicletinha rosa com cesto, em que ela colocava sua mochila. Ivone pedalava uns 40
minutos até chegar em casa!
André tomava a “bacatada” com a esquerda e a direita folheava com delicadeza o livro. De lápis grifava frases, parágrafos. Distinguiu, arrepiado, argumentos e visões de mundo, a sintaxe afetuosa de Déa, nos trechos belíssimos de etnografia pura e envolvente!
Foi quando ouviu: “Por favor, Colaborador Gabriel, dirija-se à entrada da loja. Por favor, Colaborador Gabriel, dirija-se à entrada da loja. Por favor, Colaborador Gabriel…”
Reconheceu logo a voz da Mikaely: essa era da terceira ou quarta leva. Ele a chamava de “radialista”, pela locução precisa e o timbre aveludado. Às vezes estava no caixa, outras no microfone dando os recados administrativos, outras cuidava do estoque!
Batalhava para terminar Odonto e tinha duas meninas: “Mika” lhe confidenciou após os
anos em que conversavam sobre os livros que ele trazia e acerca da perfeita dicção dela. “Será que o Gabriel estava na zona da degola?” – André prontamente imaginou.
O botafoguense Gabriel era da quinta ou sexta leva. Junto com o Cleudo, Clóvis, Izaura, Simone e a Maria do Céu – pelo menos era assim que André recordava. E sim, era verdade. Na segunda-feira, Gabriel e essa patota não trabalhariam mais por lá. André apenas aqui e acolá voltaria a encontrá-los, quando vinham ao cinema ou passear e se reuniam rápido com os colegas de trabalho que permaneceram, por hora.
Faziam a maior festa e brincadeiras nesses instantes, com abraços e risos. Seria num desses reencontros, aliás, em um futuro nem tão distante, que André ficaria sabendo, pelo próprio, que Gabriel estava terminando a Licenciatura em Geografia – depois de despedido foi garçom um tempo e se virara com mãe e irmã num negócio de trufas, bolos, empadinhas. Ele lhe diria também que já ensinava como substituto e estava aprovado num primeiro concurso para efetivo de uma Prefeitura próxima da Capital.

Agora, André pensava na próxima vez que levaria o “Argonautas do Pacífico Ocidental: um relato do empreendimento e da aventura dos nativos nos arquipélagos da Nova Guiné Melanésia”, de Bronislaw Malinowski, debaixo do braço para desfrutar em meio às multidões. Para revisitar aquelas aulas às sextas-feiras, manhãs cheias de vida,
da sua graduação. Para explorar novos caminhos inspirados por quem partiu cedo
demais.
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Edmilson Alves Maia Júnior (foto) nasceu em 1977, em Fortaleza (CE), onde morou até o início dos anos 2000. Foi professor substituto nos cursos de História da Uece e UFC. É professor do Curso de História da Universidade Estadual do Ceará desde 2008, na cidade de Quixadá, na Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central (Feclesc), e doutor em História pela UFMG.
Mestre e graduado em História pela Universidade Federal do Ceará, instituição na qual é professor do Programa de Pós-Graduação Profissional em Ensino de História. Coordena o Programa de Pós-Graduação em História e Letras da Feclesc.
Tem crônicas e contos publicados em sites e livro físico.




