Por Edmilson Maia Jr., professor universitário, historiador e escritor:
Era por volta da meia-noite, quase todas as cadeiras viradas nas mesas, e do nada o Doutor em Astrofísica, Sidarta Taha, olhos arregalados, apontou pela vidraça do
restaurante indiano em direção ao cume da enorme rocha bem no centro do município:
– Ali na Pedrona, o que é aquilo? Olhem para cima!
– O que foi, cabra? – falou a Carla Lineu, a pós-doctor em Botânica Molecular.
– Tá bebo, Sidão? – Robertinho, o Titular da Física Quântica, retrucou.
– Está cintilando no topo, parece estrela, pode ser ilusão óptica, reflexo celestial, é um clarão vermelho, laranja, reluzente, na Pedra Grande. Apaga e acende, do lado da Cruz quase. Vejam a letra Z do nome do empresário na Pedra, de baixo para cima direto.
– Tô vendo, no Monólito central, uma luz do ladinho da cruz, entre as antenas, mudando de cor, piscando, ziguezagueando, tipo dançando pela rocha – concordou a Paula Márcia, que estava como professora substituta na Arquitetura havia quatro Seleções.
– Isso é um enxame de vagalumes, está até “bailando” mesmo – disse o Petrônio, bioquímico, professor visitante – reagrupam-se assim durante a cópula, né, Carlinha?
– Pode ser, meu bem. Mas está mega concentrado, pode ser também fogo-fátuo…
– Vamos para fora olhar melhor – Robertinho empolgou-se – será algum curto?
– Vamos – disse Jofre, seu orientando na graduação, mestrado e doutorado, apelido de “Nanotubo” pois examinava há anos estruturas ocas de carbono com múltiplas funções.
Na calçada do Ganesha, todo decorado com enfeites e luzes de Natal, contemplam diretamente a rocha gigantesca com a Cruz cravada, aventuraram-se na rua, logradouro acima defronte ao Monólito chamado “Pedra Grande” mesmo nome da cidade. Paula, que estava na porta do estabelecimento, acabou com a brincadeira:
– Vamos rachar a conta e simbora, pessoal? Amanhã tem aula cedo, faremos outras despedidas nessa última semana do semestre. Hoje ainda é terça-feira, galerinha!
Pagaram e foram: Sidarta, Roberto e Nanotubo rumo a saideira no Bar 24 horas; Petrônio e Carla moravam no Condomínio da Pedrita, partiram juntos na Fazer
Escarlate.

Paula Márcia atravessou a rua para o primeiro prédio com elevador no município. Morava lá desde o segundo contrato como temporária na Faculdade. Estava sozinha: Felipe viajou para Natal, trabalhava como temporário na Federal; os três pivetes, Mariana, Mário e Marlon, visitavam os avós naquela primeira semana de férias do fim de ano.
A historiadora entrou, ligeira pelas escadas até o 301. Buscou no escritório a pesquisa IC com bolsistas, chamada “Serventias e Vozes das Pedras Vivas”, sobre apropriações das rochas nas ruas, praças, quintais, como chalé, mesas, balcões, para secar e passar roupas, até como fogão! Descobriram ata do século XIX quando a Câmara quis importar dinamites da Guerra Civil Americana para “destruir esses trambolhos impeditivos do progresso, serão os alicerces da civilização no sertão”. Pesquisaram a “Pedra Grande”, bem no núcleo urbano, da Cruz fincada: durante a Era Vargas havia procissões, novenas e missas no 11 de fevereiro e Dia dos Finados. Nela incrustaram, nos anos 1980, em letras maiúsculas, o nome completo de empresário prestigiado da cidade.
Paula então pega o gravador digital na gaveta do birô e clica na pasta chamada “Irmãs Carambolas”. Conectando o fone de ouvidos ao aparelhinho, sentada na cadeira vermelha, começa a escutar passando os trechos até chegar em certa sequência das falas.
“Dona Fátima, como é que vocês, as três irmãs Carambolas, conheceram a Estela?
– Professora Paula, isso dela ser nossa amiga era porque a Estela vivia com a gente para cima e para baixo na Praça do Coreto na matinê da banda de música ou na Esquina do Picolé ouvindo recadinhos do coração pela Rádio Difusora com as caixas nos postes.
– Lelinha ia com a gente também olhar as bonecas e os vestidos nas vidraças das lojas chiques para as filhas dos donos das fábricas, né, Fatinha?
– Verdade, Vaninha! Recordam quando pulávamos nos fardos de algodão?
– Sim!!!!
– A vizinha Leonice levava a comida dos parentes dela e deixavam a gente entrar no depósito, subindo até o teto pelas plumas, era bom demais! Estela ficava maluquinha!
– Eu lembro como se fosse hoje da Lelinha balançando os cabelos longos até ficar com o rosto todo coberto e falar: “Sou doida!” … A gente morria de rir.
– A Dona Imaculada e a Estela moravam na rua detrás da nossa, não era, Tereza?
– Ela só vivia no meio da rua isso sim, esqueceram?
– Era… O pai morreu. Dona Imaculada só teve Estela, batia nela, aí juntou com um vagabundo que batia nelas duas. Lelinha nunca queria voltar para casa por causa dele.
– Parece que ele fazia aquelas coisas ruim com ela, né, Vânia?
– Isso eu não sei, Fatinha, mas batia nela, a mãe deixava, Estela sofreu muito.
– Foi quando ela começou a subir a Pedra Grande. Passava vários dias, arrumava comida, água não sei de onde. Subia por todo lado, não só pelo caminho das primeiras
missas, do letreiro lá do bichão empresário. A senhora quer saber disso, né, Professora?
– Isso, Dona Tereza! Mas fiquem à vontade, falem o que sabem da Pedra e Lelinha.
– De manhãzinha ou noitinha, aparecia um brilho de estrela lá em cima, um vulto para lá e para cá passeando, dançando. Era ela, a Estela tinha subido na Pedra Grande.
– Teve um dia que veio foi o Caminhão dos Bombeiros do Quartel lá da Capital atrás dela. Ficou foi uma semana direto, apanhou tanto daquela vez, ficou toda marcada.
– Ela ficou com desgosto medonho e subiu na Pedra com querosene um tempo depois e se incendiou, de um lado pro outro, todo mundo olhando debaixo desesperado.
– Tu sabe que isso não é certeza, Fatinha! Deixa de conversa.
– Pois é, Vaninha, a Fátima fica vendo coisas, inventando conversa, ninguém sabe se foi ela, foi alguém, povo que diz que viu, não acharam nada. Estela fugiu, isso sim.
– Não dizem que ela foi morar noutra cidade, tem família e tudo, Dona Teresinha?
– Dizem, Dona Paula. Ninguém sabe. A Lelinha desapareceu após a última surra. ataram de faca o padrasto numa briga de bar depois. A mãe morreu de câncer há cinco anos, pelos cantos clamando: “Cadê minha menina Estela?”, Dona Imaculada, sozinha no escuro, pelo corredor sem fim da sua casona, chamando a filha.”
Paula dá o stop, desliga, guarda de volta. Abre a porta da frente do AP. Sobe pelas escadas ao terraço de onde podia olhar diretamente a Cruz, o letreiro do nome, as sendas e fendas, crateras negras da Pedra Grande. Procura, na rocha ébano, a estrela bailarina de antes, sente uma rajada de vento frio que lhe deixa toda arrepiada. Ao seu redor, o silêncio.
*** ***
Edmilson Alves Maia Júnior (foto) nasceu em 1977, em Fortaleza (CE), onde morou até o início dos anos 2000. Foi professor substituto nos cursos de História da Uece e UFC. É professor do Curso de História da Universidade Estadual do Ceará desde 2008, na cidade de Quixadá, na Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central (Feclesc), e doutor em História pela UFMG.
Mestre e graduado em História pela Universidade Federal do Ceará, instituição na qual é professor do Programa de Pós-Graduação Profissional em Ensino de História. Coordena o Programa de Pós-Graduação em História e Letras da Feclesc.
Tem crônicas e contos publicados em sites e livro físico.


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