Por Edmilson Maia Jr., professor universitário, historiador e escritor:
Layla adorava o barulho da chuva no telhado. O céu desabando em relâmpagos e trovões noite afora; os pais, irmãos nos quartos, tio na sala, o quintal vazio: Snoopy há tempos morrera vomitando sangue e dor. Ela jurou jamais criar animal algum de novo.
Cedinho teria orientação do TCC. Banho! Vestiu a blusa do time tricolor combinada ao jeans azul colado nas curvas. Tomou café, saiu pelo bairro com nome de batalha onde sempre morou. Ia pensando na vida, completaria 23 na próxima semana, aniversários deixavam-na mais intensamente reflexiva, melancólica, que de costume.
Desfilava pelo trajeto até o maior supermercado da região, do carrinho de feira empurrado pelo pai deslumbrado, a mãe preocupada no lar com gente do interior a tentar a sorte na capital. Frente ao Colégio Católico, recordou do primeiro grau com bolsa. Da sala de leitura, da Coleção Vagalume, Pedro Bandeira, Márcia Kupstas. Dos alunos danados e o “quarto escuro” da entrada no alçapão do teatro. Não conhecia ninguém preso, castigado, mas todos morriam de medo. Riu internamente da lenda boba: “Uma cela na escuridão sob o piso para estudantes malcomportados? Jesus! Era o que faltava!”.
Até a parada muitos assobiaram, viravam-se para ela. Detestava! Pertencia a si – dava prazer para receber em dobro. Gostava dum grude, de amassos, e sábado no “Samba da Praia” dançaria até o nascer do sol (“não posso ficar mais nem um minuto com…”).
A fase do forró tinha ficado para trás, igual ao relacionamento naufragado no mar.
No ônibus, acenou para o gentil e lesado motorista, para sua filhinha loira cacheada sentada no motor. O rock nacional troava na FM Tempo, paisagem esvaindo pela janela, tempo molhado na pele morena, negra cabeleira. Tanta mocidade nos bancos, conseguiam ser mais jovens que ela, tinham “todo tempo do mundo” e à noite pegariam bigu. Bagunçavam a viagem toda: “Vai devagar que eu tenho medo, Ayrton Senna do Brasiuuu”, “Aumenta aí o som pra ver se eu ouvo, dirigidor!”. Layla era besta para rir.
Desceu, entrando no perímetro que a encantou desde a primeira vez ali. Foi em um sábado anos atrás quando ouviu, nas praças iluminadas, canções tristonhas em inglês (“Take a look at me now”, “Forever young”, “Hey now”…). Tinha ido deixar lancheira para um tio frentista num posto de gasolina que já não existia, hoje funcionava era um boteco literário: “O Barxista”! Por sinal, cruzou pelo bar após o sinal na Avenida em que, noutro sábado à noite, conferiu o resultado do vestibular na parede da Rádio Universitária – não aguentou esperar pelo jornal da manhã: tinha plena certeza que não tinha passado.
Passou! Em casa o pai a levantou do chão. A mãe dizia nunca o ter visto tão feliz como ao saber da filha “aprovada num curso tão concorrido na melhor Universidade”.
Lembrava outra vez que o velho explodiu de alegria, todavia: meninota, Layla usava a camisa com uma estampa de rosto de olhos azuis, até os pés, e o “Seu Marinho” vibrava que “o tempo dos coronéis tinha acabado”. No rádio, discorriam mudanças, nas ruas festejavam algo que não compreendia direito.
Contudo, ela logo travaria suas próprias batalhas. Culpa da tia que trouxe para casa o “Brasil: Nunca Mais!” e os “Cadernos do Terceiro Mundo”. Devorou-os antes dos 13! Na primeira eleição, Layla torceu, perdeu, chorou, o vizinho caminhoneiro abestado cantou: “Ontem fui dormir com um lá, lá, lá no meu ouvido/hoje acordei com o Brasil todo collorido”. Na segunda tentativa panfletou, com amigas da Missa, desenhos e falas do seu candidato xerocados na livraria da esquina – nova derrota. Na terceira, era filiada ao partido, outra tristeza. Na quarta campanha, seriam lágrimas de alegria; Layla era besta para chorar: “a esperança venceria o medo”, porém ela não sabia de nada disso ainda…

Entrou no antigo prédio das lutas estudantis sessentistas, deserto no fim de semestre, para encontrar o orientador no Departamento na sua sala com cheiro de eucalipto decorada com cartazes de Eventos pelos Continentes. Borges chegava com a faxineira terceirizada, ia embora com o vigia da noite. Então discutiram títulos, citações, parágrafos da monografia, com a presença de espírito assustadora do seu tutor: “E daí, Layla?”. Prontamente contrapôs, sem convencê-lo, que entretanto acatou.
Reunião concluída, do orelhão avisou que não iria almoçar hoje na avó Emília, pois comeria no R.U para depois pesquisar para a “mono” durante a tarde inteira. Chuviscava. Surgiam na cabeça cenas dos cinco anos da Graduação. As aulas e palestras, a turma se aglomerando para assistir filmes do Lynch. A criação do “Dia Edson Luís” – 28 de março no R.U – a eleição do DCE perdida por 000,1%. Congressos, Simpósios, Fóruns em Recife, BH, Rio, Sampa, Pôa, Jampa, Niterói. As Calouradas, a banda “ErosDitos”, as edições da festa “Culto a Baco” – tocava R.E.M pulavam ensandecidos.
Os bares do bairro e suas árvores, cantinhos pertinho do CEU. As edificações cor de rosa, a Casa Amarela, o Pátio Interno, o Bosque, a Biblioteca onde chamegou nas estantes. “Non, Je Ne Regrette Rien!”. Nem do namoro a graduação quase toda, aquele amor medonho pelos cantos e muros, agora morto e enterrado. Nem dos dias estudando, inclusive o obrigatório Francês Instrumental – não queria passar vergonha nas apresentações e debates.
A monografia de Layla investigava “sites”, preferia falar “sítios”, que elogiavam o golpe de 1964. Especulava onde esses dementes reacionários achavam que chegariam com sua saudade ressentida e sua retórica do ódio. Idiotas! Conteúdos salvos em dois disquetes, deixou o Laboratório de Informática. A nostalgia ficando pelo caminho, ansiosa pelo último compromisso do dia: o antigo desejo de ser professora, contrariando opiniões em geral, e que iniciaria na Faculdade no lado oposto da cidade.
Seria tarde?
Dava tempo passar em casa. Ao chegar tomou novo banho, separou blusa branca e minissaia preta. Curiosidade a mil com a primeira aula. O calendário estava irregular pela última greve, e assistira uma vez uma excelente Conferência, no Auditório Central, do docente que ministraria Introdução. Foi sobre “Signos e Relíquias do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto”. Arrumou-se, jantou rapidez. Despediu-se dos pais sentados no sofá, doutro tio que se balançava, assistiam a novela das 6. Caderno nos braços, ela partiu.
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Zózimo despertou no quarto escuro, no fundo da rede, vestido na calça jeans grossa, meias, camisa de mangas compridas e com dois lençóis. Na madrugada tinha tido calafrios, febre, tido medo, dores reais ou imaginárias, tanto fazia, pelo corpo todo e na cabeça: acordou apavorado diversas vezes sentindo sufocar, usava direto o oxímetro.
Só conseguiu adormecer ouvindo baladas românticas oitentistas nos fones de ouvidos bluetooh do notebook. Perdera a noção do tempo: dia ou noite; segunda ou sábado; ontem ou hoje? Meses sem academia e sem encontrar a família, só fazia chamada de vídeo. Viviam o necessário isolamento social na vertigem autoritária de alguns anos, da qual não via saída em curto prazo: até uma corrente marxista revolucionária, expulsa do partido após a eleição de 1989, o convidou para militar. Titubeara!
Não discernia as coisas direito acabando de acordar. Intuía aos poucos que sonhara com algo bom, prenhe de frescor, sabor de possibilidades, tempero de tempo, caldeira de paixões, bem diferente do pesadelo de semana passada ao sonhar que o pai, a avó, estavam vivos, riam festejando, de repente acordou da mentira. “Certas dores pareciam agiotas: nunca podiam ser pagas” – maratonara numa série streaming na TV smart. Lembrou imediatamente seus mortos recentes, abaixo dos 45, três professores: um amigo do tempo da faculdade, um ex-aluno, um colega de trabalho. Deparou mortes piores que outras. Viver era colecionar, sentir perdas no varejo. Agora, porém, era atacado de cadáveres. Uma querida em comum ligou chorando que o amigo da época da graduação chegou a entrar consciente no Hospital: “Não quero morrer” – foram as suas
últimas palavras.
Lâmpada ligada, Zózimo constatou o celular descarregado: “Melhor assim”.
Depois do banheiro, caminhou pelo corredor até a janela da rua. Atinou para os postes com luzes acesas no tempo nublado. À sua frente, o edifício vazio, ninguém sabia do retorno. Proliferaram lives e logo as tais das aulas remotas. Rememorou o início de tudo: ônibus de várias direções, na neblina, para os muitos jovens com malas refugiarem-se em suas cidades, em correria geral. Seu estagiário chamando quem quisesse ir, de carro, rumo ao sertão adentro. Pessoas estocando água, remédios, comida e gases.

Na volta pelo vão, Zózimo notou teias de aranha no teto, paredes empoeiradas, o chão sujo. Fez um lanche, ativou o pen drive de músicas baixadas direto da internet, e então Eric Clapton troou pela casa. Colocou uma máscara, pegou a vassoura, com papel e desinfetante limpou o cocô dos gatos. Foi à calçada, ninguém à vista. Desde a garagem derrubou o pó, varreu, passou o pano molhado depois. Na cozinha, sob a pia, catou diversas garrafas para o saco reforçado. No quintal, observou os dois bichanos: “Sérgio Sampaio” e “Raul Seixas”; e a cachorra alvinegra arreganhada. Pôs as rações, recolheu folhas, areia, outras bostas. No horizonte, avistou as pedras e serras cercadas pelas nuvens carregadas. Vedaria as bandas do portão antes de cair o que parecia um toró: tinha a tela da época do apartamento, ajuntou com pregos enferrujados, buscou o velho martelo do pai.
Mãinha reclamava que ele acumulava “bregueços” igual a sogra dela! Uma tarde, quando era menino, penetrou num compartimento do casarão da Vó Olívia. Ferramentas, móveis, vitrola vermelha, caixa de som era a tampa, baú, revistas de futebol e moda, monóculos, chaveiros chiques variados, canivetes de cabos rebuscados. Pediu um. “Pra onde foi tudo aquilo após avó morrer aos 103?” Ele jamais se desfez de seu presente.
Usou-o para dividir a tela em duas partes iguais para cada banda, martelou em cantos para prender as pontas esticadas. Ficaram frouxas. Pegou o varal, picotou para amarrar os pedaços da tela em vários pontos da grade de ferro. Nós, laços. Chega de gato invadindo para sujar!
Ouviu o barulho da chuva no telhado. “Droga!” Vento frio. Animais para dentro: Laura corre em disparada, do quintal até a garagem, ricocheteia nas paredes, tipo parkour.
Zózimo então armou a rede na sala e foi tomar banho ao som de Tim Maia. Possuía duas coleções dele com uns 30 CDs nos dois boxes. Contudo “Ela Partiu” tocou direto do download salvo no velho pen drive inserido no aparelho acoplado ao velho 3 e 1.
Vestiu-se, lanchou, enfim criou coragem e colocou celular pra carregar na tomada.
Na estante estavam separados: “A Peste”, “Ensaio Sobre a Cegueira”, “A Dança da Morte” e “A Estrada”. Há semanas aguardava os últimos números de “The Walking Dead”, as novas edições de “Fareinheit 451” e do “Cântico para Leibowitz” que descobriu no prefácio da coletânea “Mundos Apocalípticos”. No último rastreamento: “em atraso – produto passando por uma vistoria”. Veio-lhe à mente a prima que tinha recebido da transportadora um pedaço de tijolo na caixa no lugar do smartphone de 5 mil reais; a loja virtual, uma gigante no mercado, acusou-a de estelionato quando reclamada.
Escolhe o “A Passagem” com as 200 páginas restantes para ler. A chuvinha cessa, abandona o livro, animais para fora, recorre ao DVD “Cidade dos Sonhos” pela enésima vez, que o faz adormecer entre vermelhos e azuis feéricos, oníricos, diante seus olhos.
Acordou com os primeiros raios do sol em seu rosto que adentravam, insopitáveis, pelas frestas da tela presa as grades do portão do quintal ao céu aberto.
Celular carregado, sob a rede, imediatamente aperta o on em concisa infinita espera até escutar a mensagem recebida pelo aplicativo: “Zózimo, nessa vida da gente de agora só nos restou Memória”.
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Edmilson Alves Maia Júnior nasceu em 1977, em Fortaleza (CE), onde morou até o início dos anos 2000. Foi professor substituto nos cursos de História da Uece e UFC. É professor do Curso de História da Universidade Estadual do Ceará desde 2008, na cidade de Quixadá, na Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central (Feclesc), e doutor em História pela UFMG. Mestre e graduado em História pela Universidade Federal do Ceará, onde é professor do Programa de Pós-Graduação Profissional em Ensino de História. Coordena o Programa de Pós-Graduação em História e Letras da Feclesc. Tem crônicas e contos publicados em sites e livro físico.


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