
Por Alberto Perdigão, jornalista e pesquisador:
Otávio (1905) e Dolores (1921) casaram-se em 1943. Ela, professora leiga com 22 anos; ele, comerciante viúvo de 38, no então distrito de Palma, em Sobral — hoje, município de Coreaú. Antonio Carlos Belchior (nome completo, sem acento) nasceu no dia 26 de outubro de 1946. Foi o terceiro filho de Dolores e o 11º filho de Otávio, sendo o primeiro a nascer em Sobral.
Veio ao mundo numa casa da rua Santo Antônio (hoje, Padre Fialho), onde viviam pai e mãe, cinco dos oito irmãos do primeiro casamento (dois haviam morrido na infância e uma terceira foi entregue para ser criada pela avó paterna), um irmão do segundo casamento (o imediatamente anterior a Belchior havia falecido meses antes), além de duas primas e uma sobrinha de Otávio, totalizando onze pessoas.
Entre 1947 e 1960, a prole aumentou. Nasceram mais nove irmãos de Toin — como Belchior era chamado na infância, em casa —, ampliando o contingente familiar para 21 pessoas. A casa não existe mais. Uma residência de dois pavimentos foi erguida no local. Hoje, as lembranças estão guardadas em uma estátua e no nome de um bairro, para que o filho ilustre de Sobral nunca seja esquecido.
A Sobral daquela época tinha cerca de 20 mil moradores, muitos de famílias aristocráticas tradicionais. Os Belchior (ainda chamados com o som de “ch”) eram de classe média, queridos, respeitados e religiosos. Eram sempre vistos na missa dos domingos, a das 5 horas da manhã, na Catedral, com aquela ruma de meninos de todas as idades, limpinhos, arrumados e bem-comportados.
Só depois da missa começavam a operar os serviços de alto-falantes de poste, que sintonizavam a cidade com o mundo. A Rádio Imperator transmitia do interior do Teatro São João, na rua Menino Deus, e o som chegava “perfeito” à rua Santo Antônio. Ressoava o dia todo, até a noite, a semana inteira, com notas, recados e as melhores páginas musicais de Luiz Gonzaga, no baião, Nora Ney e Linda Batista no samba-canção.
Emissora de rádio mesmo só chegaria a Sobral em 1952. Até lá, a família se informava pelos aparelhos de rádio de ondas curtas e, assim, sabia dos embates da Guerra Fria, da eleição de Getúlio Vargas e da derrota do Brasil na final da Copa de 1950 no Maracanã. Era também daquele caixote de madeira da sala que ecoavam as vozes de Francisco Alves, Emilinha Borba, Marlene e Dalva de Oliveira.
O Toin se mostrava inteligente em casa. Logo aprendeu a ler, com a Dolores, e a escrever — com a letra boa — pelas mãos da educadora do bairro, Isabel Cialdini. Terminou o primário dois anos adiantado no Educandário São José, onde era chamado de Antônio Carlos. Estudioso, passou de primeira no Exame de Admissão do então Ginásio Sobralense, onde tirou boas notas em português, latim, inglês e francês.
Lazer? Tempo livre? Todo para ler os clássicos da literatura, compulsivamente, algumas vezes no idioma original. Sentia-se identificado com as aulas de canto orfeônico e de religião. Sabia decorado trechos inteiros da Bíblia e da vida dos santos lidos em livros escritos em latim. Era um adolescente excêntrico, projeto de intelectual que se tornou um artista excepcional da MPB. Mas essa já é outra história…
● Esta e outras histórias estão no livro Belchior – A construção de um mito na literatura de cordel, do jornalista e pesquisador Alberto Perdigão, que sintetiza as biografias do cantor e compositor. Contato com o autor pelo direct do Instagram @falaperdigao ou pelo WhatsApp para 85 99989 8639.




