Por Leandro Becker, editor no site The Intercept, na newsletter Cartas Marcadas:
Exatamente cinco meses depois de negar gargalhando pela manhã e admitir preocupado à tarde que pediu dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, Flávio Bolsonaro serviu mais um chá revelação com sabor de mentira.
Contrário ao fim da escala 6×1 e defensor de uma proposta que abre brecha para reduzir salários e pagar por “hora trabalhada”, o senador e candidato do PL a presidente da República surpreendeu ao dizer ontem, 13 de outubro, que havia decidido votar a favor do projeto que já criticou muitas vezes e até classificou de “inoportuno e eleitoreiro”.
Na tentativa de explicar o inexplicável, Flávio foi sucinto: a maioria dos brasileiros quer o fim da escala 6×1. O que ele deixou sem resposta é por que mudou de ideia tão rápido.
O motivo, porém, é óbvio: ele se deu conta de que não tinha como votar contra os trabalhadores a duas semanas da eleição. Então, só lhe restou dar um cavalo de pau semelhante ao de 13 de maio, quando foi da gargalhada a uma explicação que, desta vez, não faz sentido nem para seus próprios eleitores.
Mas há algo a mais por trás desse jogo de cartas marcadas no Senado: uma disputa acirrada pelo comando da Casa a partir de 2027, que opõe o atual presidente, Davi Alcolumbre, do União Brasil do Amapá, e Rogério Marinho, do PL do Rio Grande do Norte.

Marinho, que coordena a campanha presidencial de Flávio, desponta como o favorito para presidir o Senado e surfar a onda de extrema direita que inundou o Congresso. É dele, inclusive, a autoria da proposta da “hora trabalhada” e da suposta “liberdade” para o trabalhador negociar de igual para igual com o patrão.
Já Alcolumbre, que não quer largar o osso da presidência, está longe de ser um aliado da esquerda, embora não seja de extrema direita. Ele sabe, porém, que perderá espaço e apoio caso um governo Flávio se concretize. Não à toa, reaproximou-se de Lula durante a campanha e pautou o fim da escala 6×1 às vésperas do segundo turno de uma eleição acirradíssima.
Como Flávio está em pleno exercício do mandato de senador, não poderia se esquivar de uma posição. Restavam-lhe apenas três saídas: abster-se do voto e ser taxado de “em cima do muro”; votar contra e consolidar a pecha de inimigo do trabalhador; ou votar a favor, apelando a um contorcionismo para não admitir que a proposta apoiada por Lula deveria virar lei. O filho de Jair Bolsonaro escolheu a terceira opção.
Chama atenção que essa reviravolta de Flávio se deu poucos dias após ele criticar Lula por pressionar o Senado a pautar o fim da escala 6×1. “Ele está pensando no poder, não está pensando no trabalhador”, declarou o senador em 7 de outubro. Uma semana depois, a frase de Flávio parece se referir a uma única pessoa: ele próprio.


Fique por dentro do mundo financeiro das notícias e opiniões que rolam no Ceará, Nordeste e Brasil.