Inteligência Artificial é usada como justificativa para demissões, mas ganhos de produtividade não têm a mesma proporção

Menos de 1% dos 1,4 milhão de desligamentos analisados pela Gartner em 2025 teve relação com ganhos de produtividade decorrentes de inteligência artificial. O dado contrasta com a crescente associação entre cortes de pessoal e adoção de IA e ajuda a explicar um fenômeno que ganhou espaço na comunicação corporativa: o chamado AI washing, quando empresas superdimensionam o papel da inteligência artificial ao justificar decisões relacionadas à força de trabalho.

O levantamento informou que os desligamentos atribuídos diretamente a ganhos de produtividade com IA representaram menos de 1% do total analisado. Segundo a consultoria, a realidade de curto prazo está mais relacionada a redesenho de funções, consolidação de papéis e mudanças na estratégia das empresas do que à substituição em larga escala de trabalhadores por sistemas de IA.

“Dizer que a IA cortou o posto transfere a responsabilidade da decisão para a tecnologia e retira a diretoria da conversa. O efeito prático é duplo: a empresa deixa de discutir o que de fato pressionou o resultado, e quem ficou passa a se preparar para uma ameaça que, nesses termos, ainda não chegou”, afirma Virgilio Marques dos Santos (foto acima), sócio-fundador da FM2S, PhD pela Unicamp e consultor em educação e carreira.

Cortar mais não gerou mais retorno

Um segundo levantamento, divulgado pela Gartner em maio de 2026, reforça a dificuldade de associar redução de quadro a retorno sobre investimentos em IA. A pesquisa ouviu 350 executivos de empresas com receita anual de pelo menos US$ 1 bilhão que já testavam ou utilizavam agentes de IA, automação inteligente ou tecnologias autônomas. Cerca de 80% relataram redução da força de trabalho.

As taxas de redução foram, porém, quase iguais entre empresas que reportaram maior retorno sobre essas tecnologias e aquelas que registraram ganhos modestos ou resultados negativos.

“Esse é o dado que deveria parar qualquer comitê executivo: reduzir o quadro não diferenciou as empresas que obtiveram maior retorno daquelas que tiveram ganhos modestos ou resultados negativos. Quando a taxa de corte é praticamente igual entre os grupos, é preciso cuidado para não apresentar uma decisão de orçamento como se fosse, automaticamente, ganho de produtividade”, diz Santos.

O fenômeno não é totalmente novo. Nas ondas de reestruturação das últimas décadas, empresas também associaram cortes de pessoal à busca por eficiência antes de avaliar completamente os efeitos sobre os processos.

“A tecnologia da vez mudou, mas o roteiro é conhecido: cortar em nome da eficiência e só depois descobrir o impacto sobre os processos. Com a IA, o risco é atribuir à tecnologia uma decisão que continua sendo empresarial”, afirma.

Onde o retorno aparece

A Gartner projeta que o gasto global com software de agentes de IA chegue a US$ 206,5 bilhões em 2026, ante US$ 86,4 bilhões em 2025, e prevê que o chamado negócio autônomo passe a criar mais postos de trabalho do que eliminar entre 2028 e 2029.

Para Santos, o retorno tende a aparecer quando a empresa redesenha o processo antes de automatizá-lo.

“O ganho aparece quando a empresa redesenha o processo antes de automatizar. IA aplicada sobre um fluxo mal desenhado acelera o erro que já existia e ainda produz a impressão de que a tecnologia falhou. Para quem trabalha, a leitura correta muda a decisão de carreira: quem se prepara para a IA como ameaça de substituição só vê a ferramenta; quem lê o cenário real estuda processo, porque a demanda cresce por profissionais que sabem redesenhar o trabalho e supervisionar o que a máquina executa”, avalia o especialista.

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