Por Ronaldo Caminha, economista, músico e estudioso da arte e da cultura brasileiras – o autor escreve sobre música, artistas e histórias:
Nas rodas musicais, sempre surgem polêmicas sobre as letras de algumas músicas da MPB, sejam novas ou antigas, estas últimas, motivos de intermináveis discursões pois, na maioria das vezes, o compositor já morreu, e a briga se perpetua por não se ter como provar quem tem razão.
Um caso muito conhecido é o da música “Ùltimo Desejo”, do Noel Rosa; muitos cantores interpretam o trecho da música que diz “o meu lar é um botequim” ao invés de “o meu lar é o botequim” que, acreditam historiadores e estudiosos da obra noelina, seria essa última forma a correta, fiel à criação do Poeta da Vila. Particularmente, entendo que não altera o sentido da mensagem.
Outra dúvida famosa paira sobre a letra de “O Mundo é um Moinho”, do mestre Angenor de Oliveira, o Cartola. Os versos “preste atenção, o mundo é um moinho, vai triturar teus sonhos, tão mesquinho…” ou “preste atenção o mundo é um moinho, vai triturar teus sonhos tão mesquinhos…” Na primeira forma, o termo “tão mesquinho”, separado por vírgula, diria respeito ao mundo. Na segunda, o termo “tão mesquinhos” no plural, se referiria aos sonhos. Quem é que tem razão? Não se sabe, pois o marido da dona Zica já partiu deixando saudades.
Tentando entender como o fogo dessa discussão foi aceso, fui reouvir pela milésima vez a música do fundador da Mangueira, interpretada pelo próprio, com os ouvidos bem atentos para essa passagem, e percebi que ele pronuncia a palavra “mesquinho” no singular mesmo, o que leva a entender que a sua intenção era dizer que o mundo é mesquinho e não os sonhos são mesquinhos.
Mas a discussão não para por aí, pois a letra da música significa um conselho que o autor está dando para uma garota jovem que vai conduzindo a vida por caminhos incertos – o mundo é um moinho, como uma metáfora, e vai triturar seus sonhos mesquinhos.
Na busca de opiniões mais abalizadas sobre a questão, o maestro Rildo Hora foi consultado e deu sua opinião, defendendo que o Cartola se referia a “sonhos mesquinhos”. Eu preferi concordar com o Seu Rildo…


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