Do jornalista Paulo Motoryn, na newsletter Noites Húngaras:
É urgente: o jornalismo brasileiro precisa discutir quem o financia, a quem presta contas e por que seus leitores deveriam continuar confiando nele. Escrevo isso porque há algo de profundamente revelador nas mensagens de Daniel Vorcaro que vieram a público nesta quinta-feira (15).
O banqueiro que construiu uma rede de influência sobre políticos, magistrados e autoridades encontrou portas abertas nas principais empresas jornalísticas do Brasil. Em determinados casos, Vorcaro discutia reportagens antes da publicação e interferia no conteúdo.
À medida que se revela o grau de contaminação da imprensa brasileira pela rede de influência de Vorcaro, começo a me perguntar se não está aí uma explicação para algo que até hoje me intrigava: por que a fonte não enviou o material sobre o Dark Horse para um repórter de outro veículo?
Pelo que estamos descobrindo, a hipótese de que a fonte procurava alguém fora do círculo de influência de Vorcaro fica bastante plausível.
Vale notar: algumas das revelações mais importantes vieram da imprensa independente. Entre elas, as relações entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro, que revelei junto com a equipe do Intercept; as mensagens envolvendo André Mendonça e o banqueiro, que publiquei aqui na newsletter; e as conexões de Nikolas Ferreira com Vorcaro, reveladas por Juliana Dal Piva no ICL Notícias.
Não significa que os grandes veículos não tenham feito reportagens relevantes. Mas, diante do que agora sabemos sobre as relações de Vorcaro com seus executivos, fica uma pergunta: quantas histórias foram ignoradas, suavizadas ou receberam tratamento diferente por interesses que os leitores desconheciam?

Depois do que vimos nos últimos dias, é impossível não dizer que o caso Master é, muito provavelmente, o maior escândalo de credibilidade da história da imprensa brasileira. O problema é profundo.
Nesta quinta-feira (15), você deve ter lido que o Grupo Globo demitiu Frederic Kachar, diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio, depois da divulgação de mensagens que revelaram sua proximidade obscena com Vorcaro.
A Globo classificou a conduta de Kachar como inadequada, anunciou sua demissão e reafirmou a independência editorial de seus veículos. A decisão não deveria encerrar o assunto.
É importante reconhecer que jornalistas do próprio grupo produziram reportagens críticas ao Master, apesar da relação mantida por um de seus principais executivos com Vorcaro.
Mas, no Metrópoles, as revelações são ainda mais diretamente relacionadas à interferência editorial. Segundo as mensagens, a CEO Lilian Tahan encaminhava reportagens a Vorcaro antes da publicação, recebia sugestões de mudanças e atendia a pedidos do banqueiro.
O levantamento publicado pelo UOL identificou alterações em pelo menos 11 dos 14 textos submetidos à sua avaliação. Houve também sugestão de pautas favoráveis e interferência na publicação de conteúdos. Tudo isso em um contexto no qual o Banco Master havia firmado um contrato publicitário de R$ 20 milhões com o portal.
Uma coisa é oferecer a oportunidade de responder a acusações. Outra, completamente diferente, é permitir que o personagem investigado participe das decisões editoriais. E o escândalo não termina nesses dois veículos. Vários outros foram citados, como Brazil Journal, IstoÉ e DCM. Foi generalizado.
E há algo pior nisso: uma imprensa desacreditada e enfraquecida teria menos condições de fiscalizar um eventual governo de Flávio Bolsonaro, assim como qualquer outro governo. A perda de confiança nos veículos jornalísticos pode facilitar ataques à legitimidade de reportagens e investigações, independentemente da qualidade das provas apresentadas.
Por isso, recuperar a credibilidade da imprensa não é apenas uma questão de sobrevivência das empresas jornalísticas, mas também de preservação de uma instituição essencial à democracia.
Um modelo falido: como reconstruí-lo?
Durante décadas, a imprensa brasileira vendeu ao público uma ideia bastante conveniente de independência. O leitor deveria confiar no veículo porque ele se declarava profissional, imparcial e comprometido com determinados princípios editoriais.
Enquanto isso, as relações comerciais, os interesses dos proprietários, os contratos publicitários e as negociações de bastidores permaneciam desconhecidas.
Não estou dizendo que toda publicidade compromete uma reportagem, que todo empresário é corrupto ou que todo jornalista empregado por uma grande empresa está submetido aos interesses de seus anunciantes.
Estou dizendo algo mais simples: não é razoável exigir confiança irrestrita de leitores que desconhecem quem financia a informação que recebem. E não basta responder a esse problema com declarações de princípios.
Transparência não é apenas dizer em quem se vota, quais valores se defende ou qual ideologia orienta uma publicação. Transparência é explicar de onde vem o dinheiro, quem são os financiadores, quais interesses estão envolvidos, como as decisões editoriais são tomadas e a quem os responsáveis pelo veículo prestam contas.
Isso vale para a Globo, para o Metrópoles, para a imprensa alternativa, para os veículos de esquerda e, evidentemente, para mim.
Desde que lancei a newsletter, em agosto, tenho defendido que o Brasil precisa construir alternativas ao modelo tradicional de imprensa. Não porque o jornalismo profissional tenha perdido sua importância. Pelo contrário: porque ele é importante demais para permanecer refém de estruturas empresariais pouco transparentes.
Aliás, é justamente em momentos de crise de credibilidade que surgem oportunistas interessados em ocupar o espaço deixado pelas instituições desacreditadas.
Por isso, desconfie de veículos que surgem do nada sem explicar de onde vieram. Desconfie de quem não revela quem banca suas operações. E desconfie também de empresas que proclamam grandes compromissos éticos enquanto desrespeitam os próprios jornalistas.
Quem não está dentro da profissão dificilmente conhece os bastidores das redações brasileiras. Mas basta conversar com qualquer jornalista para descobrir que muitas figuras responsáveis por práticas questionáveis são conhecidas há anos. A distância entre o discurso público de algumas empresas e a realidade vivida por seus profissionais é, frequentemente, constrangedora.
O jornalismo independente não está imune aos mesmos problemas. Uma newsletter pode ser tão desonesta quanto um conglomerado de comunicação. Um veículo pequeno pode esconder interesses tão graves quanto os de uma grande empresa. A independência não é uma qualidade que se adquire simplesmente por abandonar uma redação.
Independência precisa ser demonstrada, não anunciada.
Por aqui, tenho procurado construir essa relação de outra maneira. Os leitores sabem quem escreve, quais são minhas posições políticas e por que considero a investigação da extrema direita uma prioridade jornalística. O projeto é financiado principalmente pelas assinaturas dos próprios leitores, que podem acompanhar gratuitamente as publicações ou contribuir financeiramente para sua continuidade.
Não tenho a pretensão de apresentar minha experiência como uma solução para a crise da imprensa. Muito menos de afirmar que encontrei todas as respostas. Há desafios econômicos, editoriais e profissionais enormes para quem tenta sustentar jornalismo independente no Brasil.
Mas acredito que a relação direta com o público oferece uma possibilidade que precisa ser levada a sério: reduzir a distância entre quem produz a informação, quem a financia e quem tem o direito de cobrar explicações.

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