Por Ricardo Alcântara, publicitário e escritor:
Um amigo liga, e não é o primeiro, para perguntar se o Ciro Gomes vai declarar apoio a Flávio Bolsonaro no segundo turno. Motiva a pergunta uma informação recente de lideranças de extrema direita, aliadas do ex-candidato: o próprio Flávio teria entrado em contato com ele para pedir apoio. Comenta-se, inclusive, que ao cearense foi oferecido na ocasião um influente ministério.
Tenho dito o que sei: sei lá. Não me surpreenderia se cometesse essa bobagem porque, movido pelo ressentimento, as tem produzido em série. Digo “bobagem” por alguns motivos.
O primeiro é que o gesto não chegaria a rivalizar em expressão com os outros apoios já declarados por candidatos derrotados à presidência, governadores já eleitos e até um ex-presidente desafeto. Como se sabe, Ciro não se sente confortável como passageiro de segunda classe.
Outra. O apoio resultaria na incineração definitiva do fiapo de coerência que pode lhe ter restado. Durante sua campanha, Ciro fez, sobre a aliança perversa montada com o Bolsonarismo, um discurso de redução de danos em que argumentava como se o pacto fosse um imperativo estratégico para evitar um apocalipse na gestão do Estado. Exagero. Deu sentido de aparência nobre a um extremo oportunismo. O apoio a Flávio, portanto, seria como tirar a máscara durante o baile, à presença de todos no salão iluminado.
Caso venha, em algum momento, a sinalizar de público que vai digitar 22 na urna no dia 25, não o fará pela primeira vez: já no segundo turno da eleição de 2024 para a prefeitura de Fortaleza Ciro apoiou abertamente André Fernandes, o candidato a quem, dias antes, havia se referido, sem cerimônia, como Rapacu e o definido como “um sujeito completamente maluco”.
O apoio, diga-se, já estivera pronunciado quando, ao final do primeiro turno e já candidato derrotado em 2022, mandou um sonoro “aí dentro” para o eleitor e saiu de férias, rumo a Paris, enquanto muitos que o haviam apoiado ficaram aqui, tentando impedir o país de cair nas mãos milicianas do sujeito que, após vitimar centenas de milhares de pessoas com sua atitude negligente durante a pandemia, ainda tentou dar um golpe de Estado e tramar contra a vida do candidato eleito.
O regresso de Ciro Gomes ao golpismo de pendor lacerdista que está no registro genético de sua formação não começou agora, como está demonstrado, e não surpreenderia se renovasse seus créditos numa quarta temporada.


Fique por dentro do mundo financeiro das notícias e opiniões que rolam no Ceará, Nordeste e Brasil.