Ronaldo Caminha: “Gosto musical e política nem sempre se afinam”

Por Ronaldo Caminha, economista, músico e estudioso da arte e da cultura brasileiras – o autor escreve sempre aos sábados sobre música, artistas e histórias:

Tem ficado muito claro nesses tempos de polarização ideológica a música simbolizando o posicionamento político das pessoas. Gostar de determinado estilo já demonstra com muita fidelidade de que lado o indivíduo está, excetuando-se alguns casos raros de contradição.

No ambiente musical brasileiro, as mensagens de cunho político sempre estiveram presentes e com uma forte identificação de ideias à esquerda, tratando de temas como desigualdade social, racismo, homofobia e degradação ambiental. Mas há também aquele estilo que não se posiciona, limitando-se ao romantismo e aos dramas amorosos vivenciados ou não por seus criadores, ocasionando uma espécie de segmentação de mercado – os engajados politicamente e os não engajados.

A chamada MPB já deixou um legado muito rico de canções políticas – “Apesar de Você” do Chico Buarque, “Roda” (Gilberto Gil), “Pra não Dizer que não Falei das Flores” (Geraldo Vandré), “Sobradinho” (Sá e Guarabyra, mais abaixo, interpretada ao vivo no programa Viola, Minha Viola, da TV Cultura, em 2012) são exemplos do posicionamento de alguns compositores em protesto ao que estava estabelecido em determinados momentos.

O protesto por meio da música era também uma forma de fazer chegar mais facilmente ao público, uma mensagem de descontentamento em relação ao Regime, o que nunca era possível ser feito através dos jornais, dos noticiários e das manifestações populares, que durante muito tempo foi proibida.  A censura estava sempre em alerta para analisar tudo que os compositores queriam gravar, tentando evitar que se fizesse qualquer insinuação crítica aos Mandatários, vivíamos uma ditadura militar violenta e castradora das liberdades individuais.

Os compositores foram aprendendo a usar recursos linguísticos sofisticados e, de vez em quando, escapava uma da “tesoura” dos censores.

Nesses últimos dias que antecederam às eleições, vimos um outro tipo de protesto, não mais com mensagens musicais e poéticas, mas de forma direta, com as declarações de vários artistas, músicos, poetas, compositores e atores, defendendo a eleição de um ou outro candidato, e com argumentos bem explícitos, expondo seus motivos e ideias.

De um lado, vimos uma forte manifestação dos representantes da autêntica MPB, se posicionarem a favor do candidato da esquerda, Luís Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores, inclusive com a realização de shows musicais em diversas capitais brasileiras. Do outro, os artistas, em maior número, da música sertaneja, também se aliarem ao candidato Flávio Bolsonaro, que representa a extrema direita. Tudo aconteceu livremente, sem censura, e cada vertente política defendendo suas posições democraticamente.

Vale ressaltar a importância de vivermos numa democracia, com manifestações espontâneas das diversas matizes ideológicas, sem nenhum tipo de repressão. Para quem viveu os vinte anos ditatoriais do regime iniciado em 1964, sabe o valor da liberdade de expressão, dando ao povo o poder de exercer suas ideias e escolher seus representantes livremente.

E aqueles artistas que já se foram, que sempre usaram suas obras para se posicionarem politicamente? Se aqui ainda estivessem, de qual lado estariam, nesse momento tão importante da nossa Nação? Falar-lhes os nomes, talvez soe pedante e atrevido, mas suas composições, mais que qualquer palavra, já diziam de que lado estavam em todos os momentos. Eles são aqueles que rechearam suas mensagens poética e melódicas com um sentimento muito forte de brasilidade, enaltecendo nossas belezas, nosso povo, e acima de tudo, o desejo de um país mais igualitário, sem miséria, sem racismo, respeitando as diferenças individuais, o direito dos povos indígenas e a preservação do meio ambiente.

Fica pra vocês, caras leitoras e caros leitores, imaginar quem seriam eles e como reouvi-los.

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