Sabrina Fernandes, no The Intercept: “Como não deixar o neofascismo vencer no cotidiano”

Por Sabrina Fernandes, jornalista, no site The Intercept:

Fico me perguntando se o primeiro turno teria tido o resultado que teve, tanto para a presidência como para governos estaduais e legislativo, se o campo progressista tivesse feito campanha com essa energia desde agosto. Fico me perguntando se o bolsonarismo teria tanta força nesse momento, se, nos últimos quatro anos, estivéssemos em campanha permanente. Trouxe um pouco disso em conversa com o Intercept Brasil esse mês, refletindo sobre a encruzilhada em que estamos.

*** ***

A foto acima mostra o bilionário sul-africano Elon Musk, nome de destaque na ultradireita internacional, com influência no governo de Donald Trump (EUA) e costumeiramente relacionado a ameaças à Democracia.

*** ***

Os militantes da extrema direita fizeram campanha permanente. Tentaram um golpe. Fizeram barulho para livrar seus golpistas da justiça. Falaram de Jair Bolsonaro sem parar. Produziram bordões e bandeiras, vestindo a camiseta no dia a dia, como se as eleições fossem na semana seguinte. Em outras palavras, a mobilização bolsonarista nunca parou um dia sequer.

Essa mobilização contínua existe desde o primeiro dia de pré-campanha de Jair Bolsonaro em 2018. Uma vez eleito, seus eleitores mais fiéis continuaram presentes, defendendo seu governo até nos momentos mais deploráveis.

Do nosso lado – da democracia, do progressismo amplo ou da esquerda – há crise contínua. Quando citamos os sintomas mórbidos da análise do filósofo marxista italiano Antonio Gramsci, precisamos contextualizar a crise de autoridade política em que eles surgem.

A frase gramsciana diz: “A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo, mas o novo não pode nascer; nesse interregno, aparece uma grande variedade de sintomas mórbidos”.

Por muito tempo, a discussão sobre esse interregno, esse período de crise entre dois momentos de autoridade estável, passou pela ideia de que o PT seria o que estava morrendo e o novo, que ainda não está pronto, seria uma nova esquerda, talvez mais radical.

Com o desenrolar da conjuntura, foi ficando mais claro que o novo não era uma força socialista, mas um neofascismo brasileiro, cada vez mais consolidado, na forma de partido, no PL.

O bolsonarismo deixa de ser apenas um sintoma, pois sua mobilização permanente garante sua força e resiliência, mesmo diante da derrota eleitoral de Jair Bolsonaro em 2022 e de sua condenação em 2025.

Desmobilização combina com despolitização

Mobilização não é só número na rua, especialmente quando exige tanta energia para garantir alguns milhares. Infelizmente, o campo progressista se acostumou a buscar governabilidade nos acordos com o Centrão e partidos fisiologistas (um nome técnico para oportunistas) e bem menos no chamado ao povo para que se organizasse e demonstrasse apoio popular para as políticas mais importantes do governo. Isso deixou também um impacto na consciência, confundindo o que é esquerda e direita na cabeça das pessoas, deixando fios soltos sobre agendas diversas e como elas dialogam com os interesses mais genuínos da população.

Desmobilização combina com despolitização. Juntas, deixaram o terreno fértil para o surgimento de um ecossistema de desinformação que hoje opera com a força das big techs e o velho poder da imprensa tradicional.

Podemos até burlar o algoritmo ou ganhar algum debate, momentaneamente, mas isso não nos trará de volta uma perspectiva de estabilidade democrática e valores de diálogo e aprendizado tão necessários para construir agendas voltadas à justiça social, à sustentabilidade real e à soberania concreta do povo brasileiro.

Portanto, independentemente do resultado das urnas no dia 25 de outubro, precisamos assegurar a mobilização permanente. Num cenário, não dá pra viver de calendário pontual de manifestação, apenas quando a coisa aperta. No outro, não dá pra desligar e confiar que que o presidente Lula está no controle e não precisará de gente ativa a todo momento.

Quando falo de mobilização, não diz respeito somente às ruas. Manifestação é importante, desde que cumpra objetivos estratégicos. Mas a mobilização é algo muito maior. É comunicação clara sobre os temas políticos, é conectar todos os assuntos ao projeto de sociedade que defendemos. É vestir a camisa publicamente e nos assumirmos sempre a favor do que acreditamos em nosso cotidiano.

Não dá pra continuar nesse sistema de chá de revelação de apoio e declaração de voto a cada quatro anos, por três semanas, na tentativa de nos salvar de outro governo autoritário.

Quem defende a paz, precisa ser bastião da paz todos os dias. Quem acredita na importância de programas sociais, precisa enfatizar isso no seu cotidiano. E quem aprendeu a postar sobre política nas últimas semanas, não pode largar isso pra lá se a gente perder, tampouco se a gente ganhar.

Precisamos agir como se estivéssemos em campanha permanente. Não por um candidato ou partido, mas pelo Brasil que queremos e o planeta que precisamos salvar.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima