Sons de sábado, por Ronaldo Caminha: “A música no ambiente rural”

Por Ronaldo Caminha, economista, músico e estudioso da arte e da cultura brasileiras – o autor escreve sempre aos sábados sobre música, artistas e histórias:

Vi e ouvi de perto como é a música no ambiente rural, no interior das fazendas, no meio da caatinga. Canta-se e toca-se por muitos motivos; às vezes com alegria, para comemorar a boa colheita, noutras, com tristeza por não tê-la, devido à seca ou ao excesso de chuvas.

A música também ecoa do meio da pastagem, com os aboios improvisados do vaqueiro, para conduzir o gado de um local para outro; e o interessante é que os animais se acostumam com aquela cantiga e à voz do “cantor”, atendendo ao chamado de longe.

Nas festas religiosas, que se realizam tradicionalmente para homenagear o santo da devoção do lugar, rezam-se ladainhas e cantam-se cantigas dos seus ancestrais, que foram aprendidas por várias gerações, como uma forma de manter vivo aquele ritual.

São pessoas muito simples, trabalhadores da roça que moram em casa de taipa, de chão batido, sem água encanada e saneamento básico, à luz de lampiões e lamparinas; uma vida muito difícil. Apesar de tudo, tem seus momentos de alegria e descontração, embalados por uma música que eles mesmo produzem, com seus instrumentos rudimentares, alguns até inventados por eles, como a flauta de taboca, tambores feitos com couro de animais, triângulos de ferro, e uma imprescindível sanfona, que eles aprendem a tocar sozinhos, sem professor, tudo na base da intuição.

No Cariri, mais precisamente na Cidade do Crato, surgiu ainda no século XIX, em 1815, a Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto, fundada por José Lourenço da Silva (Aniceto), com todos os instrumentos confeccionados artesanalmente pelos próprios músicos – flauta, pífanos, zabumba, caixas e pratos de metal – proporcionando sonoridades e timbres bem singulares. Esse grupo se mantém em atividade desde a época da fundação, passando por várias gerações da mesma família, misturando cantigas inspiradas no cotidiano rural, e danças com uma forte influência indígena. 

Lembrei-me agora de uma canção do Cartola – “Sala de Recepção” – em que ele descreve a simplicidade e a pobreza do lugar que morava – o Morro de Mangueira – contrastando com a música e a poesia que as pessoas produziam:

“Habitada por gente simples e tão pobre,
Que só tem o sol que a todos cobre,
Como podes Mangueira cantar?”

Esse ambiente rústico foi a fonte de inspiração de muitos compositores famosos – Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira, Zé Dantas, Dominguinhos, Jackson do Pandeiro, Elino Julião, Ary Lobo, Gordurinha, Noca do Acordeon – que viveram essa experiência e a transformaram em canções eternas. Todo mundo conhece “Asa Branca”, “Que nem Jiló”, “Boiadeiro”, “Assum Preto”, “Baião”, “13 de Dezembro”, “Triste Partida”, “Sebastiana”, “Forró de Limoeiro” (abaixo), “Xodó”, “Lamento Sertanejo”, “De volta pro Aconchego”, “Xodó de Motorista”, “Súplica Cearense”, “Baião da Saudade”. 

E os Cantadores de Cocos e emboladas, muito comuns nessas paragens; geralmente cantam em dupla, fazendo uma espécie de duelo improvisado, sobre um tema que eles chamam de “mote”, versejando em blocos, sempre terminando com o tema escolhido. O acompanhamento pode ser de pandeiros e ou violas. As pelejas sempre decorrem como muito deboche e insultos entre os contendores; apelam para os defeitos físicos, cor da pele, valentia e frouxidão, no estilo “censura livre”, sempre arrancando aplausos ou vaias de uma plateia que se forma ao redor.

Nesse estilo se destacaram muitos grandes cantadores – Cego Aderaldo, Rogaciano Leite, Patativa do Assaré, Zé Pretinho, Jacó Passarinho, Ivanildo Vilanova e Caju e Castanha.

Numa ocasião, cantando numa feira, o poeta  Rogaciano Leite provocou o Cego Aderaldo com a seguinte quadra:

“Tô cantando com este velho
este velho que não dá mais nada
este velho todo enferrujado
já  devia estar na cama deitado”

 A plateia aplaudiu, mas o Cego não levava desaforos para casa:

“Andei procurando um besta
Um besta que fosse capaz,
De tanto procurar um besta,
Encontrei este rapaz,
Que nem serve pra ser besta,
Porque é besta demais”.

*** ***

Pois é, a música parece uma necessidade da alma, um alento para as dores do mundo. Já diziam a minha avó e outras avós mundo afora: “Quem canta seus males espanta”.

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