Por Vinícius Madureira, no site The Intercept:
Na reta final do segundo turno, dois empresários do agro que foram alvo do Judiciário fizeram doações que somam R$ 3,1 milhões para a campanha do candidato do PL.
O senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência pelo PL, recebeu R$ 3,1 milhões em doações de campanha feitas por dois empresários do agronegócio que tiveram problemas com o Judiciário. Eloi Vitório Marchett foi indiciado por formação de quadrilha e contrabando – o caso prescreveu antes de ser julgado –, enquanto Nelson José Vigolo é réu em um caso de corrupção na Bahia.
As duas contribuições identificadas pelo Intercept Brasil foram as maiores dadas por pessoas físicas a Flávio até o dia 21 de outubro, segundo o site de Divulgação de Candidaturas e Contas Eleitorais do Tribunal Superior Eleitoral, o TSE.

Marchett fez duas doações, de R$ 1 milhão cada, que foram efetivadas no dia 15 de outubro. Em 2006, o empresário foi alvo da Operação Zaqueu, da Polícia Federal, que desbaratou um grupo acusado de contrabandear agrotóxicos, cigarros e munições e de estar vinculado ao tráfico de drogas transnacional.
Na denúncia, os investigadores apontaram que a Sementes Carolina, empresa de Marchett com sede em Rondonópolis, no Mato Grosso, era o destino final de um esquema de contrabando de agrotóxicos. Segundo o Ministério Público Federal, o MPF, Marchett encomendava os insumos agrícolas clandestinos aos líderes do grupo de contrabandistas, por intermédio de um funcionário.
O esquema foi exposto numa apreensão ocorrida em novembro de 2006, quando a polícia localizou 200 caixas contrabandeadas de agrotóxicos escondidas debaixo de uma carga de adubo em um caminhão que também transportava pneus e uísques. Interceptações telefônicas revelaram à época que, utilizando codinomes e linguagem cifrada, a empresa de Marchett manteve contato com o grupo para continuar importando agrotóxicos ilegalmente, mesmo após as investidas policiais.
Marchett chegou a ter sua prisão temporária decretada em 2007, ficou foragido, e teve R$ 1 milhão bloqueado em suas contas.
A operação resultou na abertura de dois inquéritos. O que investigava o crime de lavagem de dinheiro foi arquivado a pedido do MPF, que entendeu que as provas contra o empresário não eram suficientes.
O outro procedimento resultou na denúncia de Marchett e de outros três réus pelos crimes de formação de quadrilha, contrabando/descaminho e violação à Lei de Agrotóxicos. A denúncia foi recebida pela Justiça em 2009, mas, em 2017, o caso ainda não tinha sido julgado. Por causa da demora, a própria Procuradoria acabou pedindo a extinção do processo, reconhecendo que não havia mais a possibilidade de os réus serem punidos mesmo se fossem condenados — a prescrição para os crimes dos quais eles eram acusados era de 8 anos.
Compra de sentenças
Marchett não é o único apoiador da campanha de Flávio Bolsonaro que teve problemas com a Justiça. Com doação de R$ 1,1 milhão para o presidenciável, Nelson José Vigolo é, atualmente, réu colaborador no âmbito da Operação Faroeste, deflagrada a partir de investigações da Polícia Federal para apurar a existência de uma organização criminosa voltada à grilagem de terras e à venda de sentenças no oeste baiano.
A rede falsificava documentos públicos – como escrituras e matrículas de propriedades rurais – praticava estelionato e pagava propinas para controlar a posse de imóveis em municípios do interior da Bahia, como Formosa do Rio Preto e Santa Rita de Cássia.
Vigolo, como empresário e administrador da empresa Bom Jesus Agropecuária, passou a ser investigado como integrante do núcleo econômico do esquema.
O empresário firmou acordo de colaboração, no qual reconheceu que pagou propina para tirar um juiz do julgamento de um caso que envolvia sua empresa. Ele comprometeu-se a pagar R$ 20 milhões ao Judiciário, como forma de devolver os benefícios obtidos com as compras das decisões judiciais, além de cumprir eventual pena de prisão.
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Segundo a delação, o então advogado de Vigolo solicitou a ele – a pedido de um intermediário – o pagamento de R$ 1,5 milhão para um juiz se declarar suspeito nos processos da Bom Jesus Agropecuária.
Segundo o Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas e Investigações Criminais do Ministério Público da Bahia, o Gaeco, Vigolo anexou provas que corroboram as afirmações, dentre elas estão: e-mails, comprovantes de pagamentos, nota fiscal, contrato de prestação de serviços e atos judiciais.
Vigolo é o atual presidente do Grupo Bom Jesus, que inclui, além de outras empresas, a Bom Jesus Agropecuária. Segundo o site do próprio conglomerado, em 1976, o pai de Nelson, Luiz Vigolo, deu o pontapé inicial na criação do que viria a se tornar um grande grupo agrícola com atuação nas regiões Nordeste e Centro-Oeste do país. As empresas estão presentes nos estados do Mato Grosso, Bahia e Piauí, superando os 385 mil hectares só de área de cultivo – o que equivale a 3.850 quilômetros quadrados, ou duas vezes e meia o tamanho do município de São Paulo, que tem 1.521 quilômetros quadrados.
Outro lado
Procurada pela reportagem, a defesa de Vigolo afirmou que a Bom Jesus Agropecuária foi vítima de extorsão por parte de um grupo criminoso no âmbito da Operação Faroeste. Segundo os advogados, a própria empresa denunciou o esquema ao Conselho Nacional de Justiça, o CNJ, iniciativa que teria dado origem às investigações.
Sobre a doação eleitoral, a defesa declarou que o repasse ocorreu de forma lícita, transparente e devidamente registrada na Justiça Eleitoral, ressaltando que o cliente não mantém relação com o candidato. O escritório preferiu não se manifestar sobre outros questionamentos, alegando que os processos correm sob sigilo (leia o texto na íntegra).
Em nota enviada à reportagem, o Grupo Bom Jesus repudia as acusações e também disse ter sido vítima de um esquema de extorsão praticado por uma organização criminosa. A empresa sustenta que provocou o CNJ, iniciativa que, segundo o grupo, deu origem às investigações.
A companhia ressalta que vem reforçando sua estrutura de governança, compliance e gestão de riscos, com a criação de comitês especializados, adoção de auditoria externa independente e a implantação de um Conselho de Administração Consultivo (leia a nota enviada).
Também procurados, Eloi Vitório Marchett e a campanha de Flávio Bolsonaro não se manifestaram até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.





