Mostre esse vídeo ao Ciro; talvez ele aprenda o que o ódio é capaz de fazer

Por Roberto Maciel, jornalista:

O rancor desmedido e incontrolável e o ódio resfolegante e revelador do íntimo desequilíbrio de quem o alimenta nunca poderão ser chamados de “atitude política”. Nem de “expressão ideológica”. Menos ainda de “opção”. Ninguém opta por odiar, não se escolhe isso. O ódio chega às pessoas de formas diversas e busca corroer outros sentimentos e destruir o que se construiu de formas outras. É a razão que tem para existir.

Não é em defesa do ódio, mas sinto-me obrigado a lembrar que trata-se de um sentimento tão legítimo quanto o amor. Só que é o oposto radical. O que escrevo aqui é uma obviedade, reconheço, mas tenho a impressão de que nem todos compreendem assim.

As religiões e as filosofias espiritualizadas buscam invariavelmente subjugar o ódio, mantê-lo sob o controle humano, prendê-lo sob camadas de coisas boas que, acreditam, vão sufocá-lo. Do oriente ao ocidente, do primitivo ao sofisticado, a humanidade tem perseguido desde sempre o ideal de abafar o que é odioso e odiento, de conter o monstro (ok, abramos uma exceção para a Inquisição católica).

Lúcifer odiou Deus, criador dele – foi por pura inveja. Caim odiou Abel, irmão dele – foi por pura inveja. 

Hitler odiou os judeus e os humilhou e matou. O judeu Netanyahu odeia os palestinos e os humilha e mata. Castello Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo odiavam “gente de esquerda”, “comunistas” e os prenderam, torturaram, exilaram e mataram. Jair Bolsonaro odeia brasileiros e deu jeito de, na pandemia, providenciar a morte de 700 mil.

A história está salpicada de casos dessa natureza. Cito esses apenas para ilustrar o quanto pode existir de ódio.

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Tive ontem a oportunidade de acompanhar “O Julgamento que Nunca Aconteceu”, uma produção do canal de YouTube “Revelando”. É uma série documental, na verdade. Esse episódio mais recente é apresentado pela atriz Camila Pitanga e oferece ao público um texto monumental, comovente e jornalisticamente preciso. Confira aqui embaixo:

Fala-se lá do assassinato de uma menina no Rio de Janeiro. Ana Clara Gomes Machado tinha somente 5 anos de idade quando foi alvejada por tiros de fuzil dados por um cabo da Polícia Militar numa comunidade do Rio de Janeiro. O documentário mostra os esforços de gente como o senador Flávio Bolsonaro, ambicioso pretendente a ser presidente da República, para garantir a impunidade do agora ex-militar Bruno Dias Delaroli, o matador.

É frente a isso que vem o incômodo de ver no Ceará, chamado “Terra da Luz”, gente escravizada pelo ódio e pela inveja. E, com essas correntes, esforçando-se para entronizar o aliado do assassino e pavimentar para ele o caminho do poder.

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Não me espanta ver entre esses Ciro Gomes. Nunca nutri simpatia ou admiração pelo que ele diz, apregoa, faz e representa, mas assim mesmo me incomodo. Não temos afinidades políticas ou ideológicas. Fico observando a forma obcecada como ele se comporta para dar expressão ao rancor que sente pelo presidente Lula – de quem diz que o traiu por não tê-lo apoiado candidato a presidente em 2018.  Agora, enfileirado a outros bolsonaristas, Ciro revela que o ódio e a inveja que sente são motores para o apetite que tem pelo poder.

Ciro se prontifica, desse jeito, a servir escada e montaria para Flávio Bolsonaro. Que fique para ele, então, o que Flávio se esforçou para apagar: o sorriso, a inocência e a alegria de Ana Clara.

 

 

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