Ricardo Alcântara: “Ciro, uma enciclopédia de versões”

Por Ricardo Alcântara, escritor e publicitário:

No debate recente d’O Povo, Ciro Gomes instou diversas vezes os jornalistas do grupo a pesquisar na web a veracidade do que dizia no decorrer das discussões. 

Não sei se, na redação, deram-se mesmo ao trabalho, mas, para conhecer a altura do chute em uma delas, bastou-me um Google básico: Não é de 30% – “O maior do país”, como ele disse – o percentual de jovens cearenses que não fizeram o curso médio nem trabalham. Embora ainda alto, é de 17%, pouco mais da metade do que afirmou.

No debate seguinte, na TV Verdes Mares, dobrou a carga de críticas para azedar a crescente aprovação do governo Elmano negando evidências, confiado na diferença quilométrica entre o número de pessoas que o viram no debate e os que leriam depois, como agora, as correções de “Fato ou Fake”.

Negou, por exemplo, ter sido assessor informal da secretaria de Segurança durante um período do governo de seu irmão, Cid Gomes, mas as notícias, tanto sobre o início de seu trabalho quanto sobre sua saída da função, estão registradas nos arquivos digitais da mídia impressa local. Como se sabe, desde Gutenberg o print é eterno!

Outra. Para se valer do prestígio atual da importante obra, lembrou que já houvera sido dirigente do projeto da Transnordestina, mas mandou esta para ver se colava: teria, disse ele, construído mais de 100 km da ferrovia quando, na verdade, nenhum trecho foi iniciado e também concluído durante sua gestão e não por incapacidade sua, diga-se.

Durante o debate, Ciro rebateu algumas vezes as falas de Elmano (governador do estado, como ele também já foi) com expressões de deboche mais adequadas aos comediantes – “Aí mente!” – e deixou gravadas, ele sim, outras tantas frases de pernas curtas.

Numa delas, negou ter sido condenado por violência política de gênero e ao mesmo tempo confessou, absurdamente, que recorreu da sentença, uma contradição em termos, assim como houvera negado antes declarações ofensivas contra médicos (“brancos e baratos como sal”) somente depois que a testemunha do desaforo, Dr. Francisco Monteiro, já havia falecido.

Acham que acabou? Tem mais. No bloco em que se discutia Segurança, disse que o Comando Vermelho só chegou ao Ceará em 2016, quando há manchetes em jornais da época (eu as tenho aqui comigo) registrando o início das ações da facção criminosa exatamente durante o governo dele, Ciro, três décadas antes! 

Se me deixam concluir, concluo agora, tendo relatado apenas uma parte de sua enciclopédica coleção de mentiras, não sem antes separar dois ou três episódios para o caso de eventual contestação por parte de admiradores da corrente ficcional de Retórica Política, como aquela sobre assiduidade residencial no Ceará ou outra, sobre histórico escolar na rede pública. Deixa quieto.

Sabemos que grande parte dos políticos, assim como os amantes, não conseguiriam manter a carteira em dia sem uma certa destreza na elaboração de suas versões. Mas Ciro abusa. Ele não cria versões: se apropria dos fatos.

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