Por Edmilson Maia Jr., professor universitário, historiador e escritor:
O docente, funcionário público, leu o aviso no muro e jurou que seria a última vez que andava com o “Seu Genoíno” saindo da capital às 03:30 da manhã rumo ao interior.
— É osso, “professor Girafales”! Mas a gente vence mais essa parada!
Morava próximo da interestadual, contudo o motorista gente boa o buscava logo, como copiloto para apoio moral. Apanhavam passageiros em áreas remotas, cantos às escuras, as lâmpadas estilhaçadas, pegariam a rodovia adiante, após atalhos suspeitos.

Rodavam entre quarteirões iguais e nada do passageiro seguinte até o novo áudio:
— O senhor está perto?
— Rapaz, passei várias vezes onde sempre ficava. Mudou foi?
— Ah, esqueci de avisar, mudei! O senhor pega a esquerda onde era, passa por um terreno baldio. É a rua à esquerda de novo, após a quadra cheia de vira-latas dormindo.
— Tá bom, mas se apronte rapidinho, fique em ponto de bala, tem um menininho numa motinha me seguindo faz tempo. Deve ser um “olheiro”, entendeu?
“Menino de moto? Cadê?”. Olhou para trás: a cinquentinha, um pequeno no comando mascando chiclete, deslizava espantosamente silenciosa pelas rotas sinuosas.
— “Profi”, quando ele chegar o senhor vai para trás, ok? Só dessa vez. Ele está se recuperando de cirurgia, com as duas pernas fraturadas, cheias de ferros, o pobrezinho.
— Sem problemas, Seu Genoíno.
Um milhão de cachorros latiram. Na calçada de pedras quebradas, estava o rapaz com as muletas e mochila mais sacolas. Genoíno desceu e o amparou, guardou a bagagem.
— Não se preocupem: a “firma” passou um comunicado geral que estava tudo em ordem. Ontem escoltaram os bombeiros a um incêndio numa loja, depois até a saída do bairro. As motos acelerando e os pivetes jogando rojões na viatura – falou o de muletas.
Seguiram caminho, observaram a motinha, rua abaixo, o guri na entrada de uma casa sob um brilho de efeito azul conversava com alguém envolto em trevas lá dentro.
Minutos depois, o carro veloz disparou na avenida larga e vazia. E outra gravação de áudio ativada singrou o silêncio da noite:
— Seu Genoíno, estou aqui, onde o senhor sempre me pegou. Está perto?
— Uns vinte minutos chego, peça que botem logo tudo para fora, no portão.
Ligeiro, então, a quilômetros de onde pegaram o de tíbias de metais, Genoíno enlaçou sacos gigantes, malas abarrotadas, ventilador, em cima do táxi. Demorou uma meia hora, ao retornar ao volante mandou a primeira vez na viagem o seu bordão favorito:
— É osso, galera boa! “Professor Pardal”, esses meus filhos dão muito trabalho,
essa minha menina mais velha é a mais danada, viu?
A “menina mais velha” era a idosa que entrou com o monte de coisas para
prender.
— Vamos pegar minha netinha ali – a velhinha, de cabelos prata, anunciou.
— Ah, na sua filha e o Tobias, né? Ajudei na mudança deles – disse Genoíno.
— “Uísque”, era só mato aqui! Agora tem tudo. Dirigi ônibus 20 anos nessa linha. Veio primeiro ela aí, esposo, trabalhou comigo na frota, criaram filhos, vieram vizinhos, irmãos, sobrinhos. Tem muita gente da terra que o senhor ensina. – o motorista
divagava.
— O nome do Senhor é “Uísque”?!?! – perguntou o das pernas metalizadas.
— Ele é o “Teacher”, rapaz, presta atenção!
Riram bastante na via que ficava para trás.
Ultrapassaram – pensou “Uísque” – pessoas parecendo pregadas, magérrimas, na muralha da ampla avenida, figuras desbotadas, coladas até rasgar, cravadas no álbum, desmanchando-se com o tempo, rasuras humanas devastadas pela epidemia de crack.
— Seu Genoíno, minha neta não está no mesmo local, viu? Teve que mudar.
— Aí foi? E onde é agora?
— Vá em frente pra onde estava indo, é depois, descendo a antiga rua.
Declinaram centenas de metros ladeira abaixo em pequena vertigem.
— E aí, está perto?
— E eu sei, Seu Genoíno? Eu só falo com ela por celular, há 2 anos que não venho aqui. Disse que era só dobrar antes do beco sem saída, depois do paredão aí, ir direto.
— Será que não é perigoso? – disse o da platina nas canelas.
— Não é não, recebemos nos grupos todos do bairro um recado da “empresa”
que essa semana estava tranquila, que “cuidavam da gente” – respondeu a anciã.
— Será? – questionou o Seu Genoíno.
— Sim! Esses dias “os patrões” chicotearam, no caroço de milho de joelhos, umas menininhas que estavam roubando na comunidade. “Tudo sob controle”, afirmaram.
— Entendi, só ficar na nossa que não mexem com a gente – disse o de muletas.
Genoíno não gostava dos “patrões”, tinha nojo deles e do “chefão” que ele chamava de “ex-presidente imundo genocida da pandemia, é tudo milícia do satanás!”. Preocupava-se agora em achar o endereço pelo GPS. Parou e deu a ré.
— Justamente, Seu Genoíno é aí mesmo. Eu sabia que sabia onde era!
Não acreditou que conseguiriam entrar na vilinha, ledo engano. Do triplex repleto de grades, saíram umas 10 pessoas, velhas e crianças, em algazarra e chororô.
— Não chora não, Mãezinha, eu volto quando tiver tudo bem. – a mocinha disse.
Beijos e abraços de despedida, enquanto Seu Genoíno atava novas malas e sacolas.
O táxi-fretado rumou ao sertão. Rádio ligado, o motorista alegrou-se da música:
— “Mas quem manda é o cabeça branca”. Viva o “Cabeça Branca”, galera boa!
Vai evitar esse novo bandido do poder, esse outro nojento da milícia, igual o pai genocida.
O educador teve suave sensação de segurança, alívio pela primeira vez na noite, o sereno frio na face, cores do céu e das luzes urbanas misturavam-se no amanhecer.
Chegaram à autovia quase às 6 horas, galos tiraram o docente de seu relaxamento:
— Que foi isso, caramba? Parece que o bicho cantou aqui dentro.
O taxista gargalhou:
— “Mestre dos magos”, você notou agora? São uns galinhos atrás de você, levando pra Fazenda do Capote, por isso estamos com menos gente na lotação hoje.
Genoíno brincou, mas estranhava o silêncio de todos da Cooperativa: da Janja, sua mulher, a Sandália de Chumbo; do Valderi que nem GPS usava e buscava todo mundo de memória; do Ronaldo que deixava os clientes na rua com medo de entrar nos cantos; ou do Amarildo que ficava com raiva fácil e dizia que “os passageiros só o procuravam quando estavam precisando”?! Ninguém dava notícias como de costume, saíram igual.
Foi quando avistou o primeiro veículo engarrafado na BR, estavam engavetados: os táxis, cinco carros, três ônibus. Motos e carros bloqueavam a pista.
— Que porra é essa, “Paulo Freire”?
— Ah, o nome do senhor é Paulo então? – acordou o fraturado.
— Seu Genoíno, que merda é essa? Estão vindo, estão vindo… Armados até os dentes, olha lá, a pé, vistoriando cada veículo, táxi e ônibus – alertou o “Paulo Freire”.
— É assalto, galera boa! Corram para o mato antes que cheguem! Não nos viram. Bora, bora, ajude sua avó Cátia, mocinha. Professor, vamos carregar o lesado das muletas!
— Valha-me Deus! – não pôde nem reclamar o platinado.
— Batam as portas todas, vamos, bora, bora, ninguém leva nada, corram, corram!
Conseguiram ir ao mato pós meio-fio, se enfiando adentro. Não podiam ser vistos, deitados cavando, a cara rente a terra, o capim, assistindo o carro abandonado.
Genoíno apertou o botão: travou motor, portas, vidros fumês, estalou o alarme com um
“Triiim”.
Rapidamente o automóvel foi cercado, no meio do barulho da sirene detonada.
— O que a gente faz, o que a gente faz, “Pastor”? – alucinou o primeiro.
— Será que ela está aí, será que ela está aí, “Patrão”? – grita outro.
— Se ela não pode ser minha não vai ser de ninguém. Senta o dedo, porra!
Metralhadoras, pistolas e fuzis berraram, junto ao som infernal do alarme que durou um tempo, no coro do caos. Plásticos, vidros, borrachas, tecidos, sangue, órgãos e penas voaram, estraçalhados em várias direções, o auto de grande porte destroçado, devorado pelas infinitas e velozes moscas-balas, abelhas-cápsulas, besouros-projéteis!
No mato, comiam areia, formigas, folhas – as cabeças atoladas fundo no chão:
— Silêncio, crianças, chorem baixinho, psiu. Pobre dos galinhos, meu Deus!
Veio-lhe à mente outra alvorada: Tião da Feira viajou de última hora em busca do ganha-pão – a mulher perto de parir – quase derrubam a porta de Genoíno.
Só ele tinha transporte. Correram pra Maternidade, bolsa estourou – encostou o carro, segurou
firme sua mão, dizendo “Força”, apanhou a guria, fez gritar, cuidou do cordão. Ano passado na “Festa de 15 anos” da moça ele foi o convidado especial, Genoíno chorou
copiosamente.
— Não estão aí não, vamos atirar nos dois lados da pista, nos matos, chefia!
— Não, já era, devem tá longe, os homi estão chegando, já era, depois pego ela, a vadia não escapa, nem a velha. Ganhamos os cuzão, os chorão dos carros e dos buzão.
Os lamentos e urros abafados nos veículos eram a sonoplastia da manhã nascente enquanto a facção partia nos automóveis e motos desfazendo o bloqueio.
Seu Genoíno levantou seus passageiros, limpando-os um a um:
— Deviam ter me dito que estavam fugindo. Teria outro jeito, outro itinerário.
— A gente teve medo do senhor não ir. Outros não quiseram. Disse que ia me torturar, matar a avó se não ficasse com ele. A família da amiga Belinha foi pro saco…
— Vou olhar a Janja, vocês vão com ela agora, é desenrolada. Vendo daqui ela ali já na direção. Os passageiros dela vão noutra viagem, chamar um táxi reserva que temos. “Professor da Casa de Papel”, você vai junto com as duas e o “quebradinho” de muletas.
– Ainda bem que não se lascou mais né, meu danadinho? Já está todo fudido, o meu filho. Farei o boletim de ocorrência. Sigam a jornada de vocês, o pior já passou, deixem tudo para trás. O carro no seguro, pego outro. Ruim é esperar para voltar ao batente.
É assim a vida, como Deus quer… A gente há de vencer essa batalha, galera boa!
*** ***
Edmilson Alves Maia Júnior (foto) nasceu em 1977, em Fortaleza (CE), onde morou até o início dos anos 2000. Foi professor substituto nos cursos de História da Uece e UFC. É professor do Curso de História da Universidade Estadual do Ceará desde 2008, na cidade de Quixadá, na Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central (Feclesc), e doutor em História pela UFMG.
Mestre e graduado em História pela Universidade Federal do Ceará, instituição na qual é professor do Programa de Pós-Graduação Profissional em Ensino de História. Coordena o Programa de Pós-Graduação em História e Letras da Feclesc.
Tem crônicas e contos publicados em sites e livro físico.


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